quarta-feira, 27 de julho de 2011

VÓ LICA

Vó Lica

Ali sentada em sua cadeira de balanço, com uma memória invejável, com seus cento e poucos anos, minha vó embalava suas lembranças e vivencias. No embalo ritmado, com seu olhar calmo iniciava sua narrativa. Enquanto falava, ia desenhando e escrevendo com sua bengala sobre o chão, como se gravasse no solo a palavra que emitia.
Minha vó faleceu aos 105 anos, mas sua presença é tão forte entre nós que muitas vezes sinto o afagar de seus dedos por entre meus cabelos, gesto que sempre fazia quando me encontrava, muito vaidosa, suas unhas sempre pintadas de uma cor de pérola, ornando seus macios dedos.
As narrativas de suas “estórias” eram acompanhadas com uma rapadurinha de leite, um pé de moleque, uma rosca de milho, uma broa de polvilho ou outro “agrado” que ela sempre preparava para adoçar nossos encontros.
Ninguém fez, nem nunca fará uma rosca de farinha de milho temperada com erva doce, uma cuca de natal, o doce de laranja azeda, a pessegada, a perada, o creme de laranja ou o arroz de arigoni (espécie de carreteiro feito com passas).
Pela idade avançada, viu muitos de seus filhos partirem antes, mas nunca a vi reclamar da vida ou de qualquer coisa que fosse, era alto astral.
Quantas recordações ela tinha do lugar onde nasceu o Pequiri, onde narrava os sacrifícios do trabalho junto ao monjolo ou a preparação do fumo em cordas.
Imagino-a lá de onde se encontra, rezando pelos seus, “Maria rezadeira, que vem do além, cura o meu filho do mal que ele tem”.
Cura-me de todas as dores, mas não curas a doce saudade de ti.
Uma homenagem de teu neto no dia da avó.

Um comentário:

Gaivotadourada22 disse...

Que lindo texto Gilberto, e uma maravilhosa Homenagem para tua Vó!
Como é bom podermos ter essas lembranças que nos aquecem o coração, mesmo na ausência sentimos a presença carinhosa de quem amamos e deixam sua amorosidade marcada em nós! Assim são as Avós, um Doce Lar!!!
Abraços!